Domingo, Março 02, 2008

O bom vinho não precisa de rótulo

Os americanos costumam dizer que, se você quer que uma coisa saia bem feita, faça você mesmo. Assim, os inventores do do-it-yourself criaram sua receita de como elaborar um super californiano, digamos assim, em apenas três etapas. Primeiro: lance ações em Wall Street. Segundo: escolha uma celebridade para dar nome ao vinho e enfeitar o rótulo. Terceiro: compre uma vinícola no Napa Valley.

Hoje é fácil encontrar nas boas casas do ramo Marilynn Merlots, Elvis Cabernets, Coppola Chardonnays e os não tão coloridos, mas não menos célebres, varietais da família Mondavi. Difícil mesmo é encontrar um autêntico home made wine nascido e criado nas férteis terras do Napa.

Metade das grandes vinícolas da Califórnia começou como vinicultura de subsistência, produzindo Zinfandels no quintal de casa para acompanhar o perú de ação de graças. O negócio prosperou graças ao terroir e ao empreendedorismo estadunidense. Alguns poucos produtores, no entanto, continuaram fazendo vinhos à moda antiga. Com carinho, paciência e o mesmo cuidado com que as avós daquela região assavam tortas de maçã.

Apenas a indicação 02 CAB escrita com esferográfica azul sobre a parte visível da rolha. Ganhei as duas garrafas de meu amigo Glynn Baker, criador, junto com sua esposa, deste autêntico californiano nascido e criado no mesmo código postal dos Opus One e dos Caymus, seus mais renomados vizinhos.

Observando a garrafa nua, tive vontade de vestí-la com uma gravura de Picasso e dar-lhe um nome qualquer como Mouton ou Rothschild. Bobagem, pensei. Como bem dizem os franceses, o bom vinho não precisa de rótulo.

Quarta-feira, Novembro 14, 2007

Aquela noite no Café Anglais

Na noite de 7 de junho de 1867, Alexandre II, tsar da Rússia, Alexandre III, seu filho e sucessor, e Guilherme I, rei da Prússia e futuro kaiser do império alemão, protagonizaram o maior espetáculo gastronômico de que se tem registro nos anais da História. O palco de tal acontecimento foi o mítico Café Anglais, em Paris.

Para o jantar, que ficaria entronizado como o Banquete dos Três Imperadores, foram preparados suflês de creme de galinha à moda do Reno, filés de linguado à veneziana, ensopados de galinha à portuguesa, beringelas à espanhola, lagosta à moda de Paris e ortolans, pequenos passarinhos, à moda de Rouen. A tradução em português fica a dever à magnitude do menu cujo texto original, por si só, justificaria a emergente Comuna de Paris e a precedente Revolução Russa. Principalmente pelos vinhos servidos:

Vins

Madère retour des Indes, 1846
Xerès, 1821
Chateau Yquem, 1847
Chateau Margaux, 1847
Chambertin,1846
Chateau Latour, 1847
Chateau Lafite, 1848

O Café Anglais foi citado no cinema em Festa de Babette. Após preparar um banquete digno de reis para um pequeno grupo de habitantes de uma vila camponesa, a chef Babette, quando perguntada sobre como foi possível consumir um prêmio de loteria em uma única noite, responde: " é o preço de um jantar para dez pessoas no Café Anglais." Emblemático de seu tempo, o Café Anglais desapareceu junto com a época da qual foi protagonista. Foi demolido em 1913. Estive lá duas semanas atrás.

Não mais se localizava no Boulevard des Italiens, mas na pequena vila incrustada na Serra da Mantiqueira. Os chefs não mais eram Adolphe Dugléré e sua promissora assistente Babette, mas Maria Olimpia Fortes e Frederic Silva. De resto, tudo permanecia igual. A sopa de camarões acima veio acompanhada de um jerez amontillado. Fazendo par com o Clos Vougeot da Borgonha ali do lado, codornas recheadas com foie gras e dispostas em pequenos sarcófagos à moda do Vale dos Reis do Egito.

Ainda seriam servidos blinis que se desmanchavam na boca feito hóstias, sobremesas feitas com amoras do pé ali do lado e um destilado de champagne, este último sob a noite estrelada. A confraternização ainda se estenderia abóbada celeste adentro. Mas não fui até o momento em que os sisudos e sofridos camponeses se auto-proclamam reis. Recolhi-me mais cedo. O sol não tardaria a raiar e alguém ali precisava tomar conta do vasto Império.

Quarta-feira, Outubro 31, 2007

O primeiro jantar na casa da mulher amada


Vinhos lendários não são privilégio apenas dos povos europeus. Os brasileiros também ostentamos em nosso breve curriculum de degustadores nomes míticos que, ainda que tenham caído de moda, ocupam lugar de honra no inconsciente coletivo enológico nacional. Por isso, não se faz necessário recorrer a Jung ou Freud para se descobrir, por trás da máscara de bebedores da tradição da Borgonha ou da modernidade supertoscana, o arquétipo fundador do leite da mulher amada.

O Liebfraumilch representou mais do que um vinho para a cultura enológica brasileira, foi um rito de passagem. Da infância para a adolescência, com suavidade, doçura e a mesma ingenuidade. Produzido na Alemanha apenas para exportação, o doce vinho suave do Reno, considerado em seu país de origem como de baixa qualidade, conquistou o mercado brasileiro na qualidade de importado e passou a se destacar na prateleira dos supermercados, não apenas pelo nome, mas também pela garrafa.

Sobre o mítico vinho da garrafa azul circulavam várias lendas. Uns diziam que era de alta qualidade pois ostentava o selo Qualittatswein, outros afirmavam que era produzido no norte da África e seria envasado em azul turquesa para justificar o preço que se pagava por ele. Fato é que o comerciante que teve a idéia de trazer o vinho e mudar a cor da garrafa criou fama, fortuna e a maior importadora do país.

A primeira vez que jantei na casa da minha namorada levei um Liebfraumilch. Há pouco, dei com esse garrafa azul safra 2003. Achei que não poderia haver no mundo vinho com a pior relação custo x benefício, mas estava enganado. Diante do carrinho de compras, a mulher amada perguntou o porquê daquele vinho. Expliquei. Passados dezoito anos, tinha daquele primeiro a impressão de um Montrachet.

Sexta-feira, Agosto 10, 2007

Na adega do diabo, sob as bençãos de Don Melchor

No ano de 1883, Don Melchor de Concha y Toro regressou da França com algumas mudas de parreira na bagagem. Tão logo chegou à propriedade situada próxima a Santiago do Chile, tratou de plantá-las no vasto pomar ao pé dos Andes. As jovens videiras cresceram, frutificaram e permitiram à Casa de Concha y Toro fabricar seu próprio vinho. Para proteger tal patrimônio, Don Melchor guardou seu tesouro no porão de sua residência e, com o intuito de espantar visitantes mal intencionados, espalhou pela região que, por trás daquelas portas se encontrava o inferno e aquele que por ali se aventurasse seria recebido por el diablo em pessoa. Só que essa é a história oficial.

Sabia-se à época, que Don Melchor produzia vinhos de qualidade e que estes eram armazenados no porão da residência dos Concha y Toro. Mas também não era segredo o fato de que o nobre nutria grande simpatia por uma sobrinha, a bela e fogosa Doña Amelia. Também não haviam de passar despercebidos os estranhos ruídos - e gemidos - que vinham do porão nas noites em que, coincidentemente, Doña Amelia por ali pernoitava. Para que tal mistério não passasse sem explicação, foi criado o mito de que, naquele subterrâneo, não se escondiam o Toro de Don Melchor nem a Concha de Doña Amelia, mas os vinhos do inominável.

O tempo passou e a nobreza de Don Melchor reside hoje num dos grandes Cabernet Sauvignon do Chile, o corpo da fogosa Amelia chega até nós por meio de um dos melhores Chardonnays do continente, e o tal Casillero del Diablo hoje pode ser encontrado em qualquer supermercado. No Chile, é verdade, não dão grande coisa por ele. Ao contrário de Don Melchor e Amelia não se tem em grande conta o Casillero. Apesar de ser este o vinho servido àqueles que visitam à Casa Concha y Toro, é considerado um vinho menor. Pode ser. Para eles. Porque este Casillero Carmenere 2005 foi uma grande surpresa. E recebeu análise à altura nos blogs Vinho para Todos, Vivinhos e Le Vin au Blog.

Carmenére é aquela uva que foi dada por extinta e, se hoje está mais viva do que nunca e fazendo bons vinhos varietais, foi graças aquele punhado de mudas que Don Melchor trouxe na bagagem. No meio delas se escondia a última Carmenére. Que vingou, cresceu e frutificou e deu vinhos como se Cabernet Franc fosse. Foi preciso que um enólogo francês a reconhecesse e trata-se de reabilitá-la. A singela Carmenére. Essa nobre uva bastarda que agora emerge, não das cinzas do inferno, mas da bem cuidada produção dos Concha y Toro.

Domingo, Junho 03, 2007

A incrível história do homem que transformou vinho em água

Na cada vez mais complexa liturgia do vinho, Robert the wine advocate Parker opera milagres. Reza a lenda que Robert the wine apostle Parker, contra a unânime opinião de todos os críticos e especialistas franceses, qualificou como "soberba" a obscura safra de 1982 de Bordeaux. Quando estes vinhos atingiram o estágio de prontos-para- beber, o mundo calou-se de espanto diante da revelação proporcionada por aquelas garrafas. Confirmada a profecia, todas as garrafas que os dedos de Robert midas Parker passaram a tocar desde então transformaram-se imediatamente em ouro para seus produtores.

Mas a maior das façanhas atribuídas a Robert the father, the son, and the holy ghost Parker ainda estaria por vir. A Robert jesus Parker é atribuída a responsabilidade de ter ensinado os americanos a beber vinho. O que, considerando a dimensão e a sede do mercado norte-americano, equivale à reversão do bíblico milagre da transformação da água em vinho operada por ocasião das bodas de Canaã.

O fato é que Robert Parker andou lendo este blog. Só encontro esta explicação para a recente coincidência de opiniões entre o Santo e este pobre pecador que vos escreve. Em entrevista à imprensa brasileira, Robert Parker andou declarando que o vinho bom é aquele que você gosta, que ótimos vinhos encontram-se em todas as partes do mundo e que, ora vejam, a razão para que se pague mais de 100 dólares por um vinho não é outra senão a de adquirir a experiência necessária para identificar os maravilhosos vinhos que situam-se na faixa de 15 a 35 dólares. Touché.

Recém-convertido ao inconsciente coletivo enológico mundial, junto-me à legião de seguidores do maior dos profetas. Como testemunha fiel que sou, declaro, em pleno juízo, que Robert amém Parker já degustou de tudo, Robert amém Parker tudo sabe, tudo ouve, tudo vê, Robert amém Parker multiplicou os pães, Robert amém Parker andou sobre as águas, Robert amém Parker ressuscitou Lázaro, Robert amém Parker...

Quarta-feira, Maio 23, 2007

O vinho de 3 milhões de dólares

Em 1787, o luxo da corte de Luís XVI e Maria Antonieta arrasavam o império francês, Mayer Amschel Rothschild iniciava a construção do maior império financeiro mundial e a idéia de mercado não era diferente de uma feira local. Nos campos arrasados pela fome, mesmo antevendo a revolução que mudaria os rumos da França e do velho continente, as uvas de Bordeaux seguiam seu inexorável destino: as barricas de carvalho.

Depois de 220 anos escondida no porão do chateau, tendo sobrevivido a uma revolução francesa, duas guerras mundiais e à voracidade de um mercado que se converteu em uma grande feira mundial, uma garrafa de Chateau Lafite Rothschild safra 1787 é posta à venda na internet por três milhões de dólares:www.antiquewine.com.

Penso naquelas pobres uvas, cultivadas, colhidas e pisadas por servos com raros direitos e plenos deveres e dívidas para com o nobre senhor do castelo. Pois são essas uvas que, mesmo não tendo freqüentado os banquetes de Versalhes nem tendo feito companhia aos brioches de Madame Antonieta, seguem agora para a guilhotina burguesa. Resta saber se o abastado comprador deste Chateau Lafite Rosthschild 1787 terá a coragem de decapitar a cabeça e verter o sangue da última testemunha viva do Antigo Regime.

Sem meios nem fundos para resgatar tal garrafa, decido brindar à sua sorte na companhia de um de seus descendentes, o chileno Los Vascos, produzido pela Casa dos Barões de Rothschild no novo mundo. Um vinho que, apesar do sobrenome, tem aroma de liberté, sabor de egalité e deixa na boca um gosto de fraternité. Além das melhores impressões, o Chateau Los Vascos também deixa em seus compradores, tirando os 45 reais que se paga por ele, a sensação de se ter feito um verdadeira barganha e conseguido por ele um inacreditável desconto de 3 milhões de dólares.

Quinta-feira, Abril 26, 2007

Vinho com prescrição médica

Aparício Torreli, o finado Barão de Itararé, já advertia: o fígado faz muito mal à bebida. Tal fato pode ser comprovado na farta literatura que, desde a Magna Grécia, relata as propriedades medicinais da bebida, em especial do vinho. Hipócrates, o pai da medicina, já o prescrevia como panacéia para a cura dos mais diversos males. Estudioso da medicina hipocrática, Galeno foi além e decifrou, há quase dois mil anos, as propriedades farmacológicas e terapêuticas do vinho.

Quando, no século VII, o alquimista Geber ( Jabir Ibn Hayyan) inventou o alambique, imediatamente surgiram metáforas como elixir da vida, água da vida, spirit e acqua-vitae para qualificar o produto final de seu invento, o álcool. Paracelso aprofundou os estudos sobre a grande descoberta dos alquimistas islâmicos e influenciou outro prêmio nobel da medicina medieval, Arnaldus de Villa Nova, que retomou os estudos de Galeno e compilou o maior tratado sobre as propriedades medicinais do vinho já existente, o Liber de Vinis.

Atualmente, a opinião científica é unânime em afirmar os benefícios terapêuticos do vinho. Desde os anti-oxidantes presentes nos taninos, até o resveratrol, substância também presente nos tintos que aumenta a potência muscular e reduz o esforço cardíaco. Sobre o resveratrol, em pesquisa publicada no site
www.cell.com, diz o especialista em biologia celular e molecular, Johan Auwerx: " O resveratrol faz de você um atleta sem nenhum esforço ou exercício." Hipócrates e Galeno não teriam ido tão longe.

O fato é que tenho sido acometido de insistentes dores de cabeça após ingerir certas doses de vinho. Diante da receita prescrita por Hipócrates, Galeno, Geber, Paracelso e outros fundadores da moderna medicina, tendo a concordar com o nobre Barão de Itararé quanto à natureza do problema: a cabeça tem me feito mal ao vinho.