domingo, março 01, 2009

Da Frugalidade


Feliz foi Meneceu. Numa tarde ensolarada o carteiro entregou em sua residência, na capital da Magna Grécia, uma carta de seu amigo Epicuro.

No pergaminho, hoje intitulado Carta sobre a Felicidade, o filósofo nascido em Samos confiava ao amigo ateniense os segredos para se apreciar a boa mesa e os demais prazeres da vida.

Para o grande mestre filósofo, muitas vezes mal interpretado e evocado em vão pela insaciável sociedade de consumo, prazer não é algo que deva ser buscado desmesuradamente e a todo custo. Isso só vai levar à dor, frustração e ao sofrimento. Para Epicuro, a idéia de prazer é, exatamente, viver sem dor, frustração e sofrimento.

Dizia Epicuro a Meneceu:
" Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta. Em outras palavras: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem tem fome."

Lembrei de Epicuro quando comprei o vinho de colono Telmo e Sônia, produzido de modo artesanal na Serra Gaúcha.

Antes de abrir a garrafa, tive o cuidado de pensar na melhor harmonização para tal vinho. Preparei um farto sanduíche de mortadela e servi o líquido de cor violeta vibrante em copo de geléia de mocotó, repleto até a boca.

Convidei Madame B. para o repas mas esta, alheia à ética do prazer de Epicuro, declinou sem explicações.

A sós, e em profundo silêncio, fui comprovando de modo empírico os ensinamentos de Epicuro a Meneceu. Ao fim da garrafa, tendo atendidas as necessidades básicas do corpo, descobri que o espírito também havia sido satisfeito. E fui tomado por uma imensa e absurda felicidade.

terça-feira, novembro 25, 2008

Metáforas. Ou, como não me tornei um sedutor falando de vinhos.

Dizem que vinho é poesia. Deve ser. Não o fosse, como explicar a profusão de aromas, cores e sabores que dele se desprendem em toda a sorte de análises, resenhas, notas e fichas de degustação criadas para transformar o amante do vinho naquele que pretende ser muito mais do que lhe confere, em significado e posição, a soma dos radicais que lhe restringem, o enófilo.

O que dizer da cor de ouro escuro de jóia antiga recém exposta ao sol, do aroma de feno cortado numa clara manhã de outono ou do sabor potente de taninos estruturados e bem domados como cavalos de raça em selas inglesas? Metáforas, diria o leitor. Inofensivas metáforas. Até ai tudo bem, não fossem as mesmas metáforas aglutinadoras de uvas e estrelas dos poemas de Neruda, substâncias perigosamente corrosivas se manipuladas sem a devida experiência.

O artigo parecia ser uma inocente reportagem sobre a Toscana. Não me lembro do autor, nem do que dizia. Recordo apenas da metáfora assassina.

... convém experimentar os saborosos supertoscanos da Casa Antinori, que se destacam por seus portentosos taninos atléticos e musculosos.

Interrompi imediatamente a leitura e fui procurar o apoio de Madame B. Esta, para meu maior espanto, não apenas concordou com o autor, como também considerou bastante pertinente e sugestiva tal definição.

Confesso a você, querido leitor, que esgotei por completo meu arsenal de idéias sedutoras a respeito do vinho. Partidário dos populares e esqueléticos beaujolais, tenho perdido noites de sono pensando no inevitável momento em que, numa mesma mesa, terei entre mim e Madame B. um nobre italiano superdotado de taninos halterofilistas.

domingo, março 02, 2008

O bom vinho não precisa de rótulo

Os americanos costumam dizer que se você quer que uma coisa saia bem feita, faça você mesmo. Assim, os inventores do do-it-yourself criaram sua receita de como elaborar um super californiano, digamos assim, em apenas três etapas. Primeiro: lance ações em Wall Street. Segundo: escolha uma celebridade para dar nome ao vinho e enfeitar o rótulo. Terceiro: compre uma vinícola no Napa Valley.



Hoje é fácil encontrar nas boas casas do ramo Marilynn Merlots, Elvis Cabernets, Coppola Chardonnays e os não tão coloridos, mas não menos célebres, varietais da família Mondavi. Difícil mesmo é encontrar um autêntico home made wine criado e nascido nas férteis terras do Napa.



Metade das grandes vinícolas da Califórnia começou como vinicultura de subsistência, produzindo Zinfandels no quintal de casa para acompanhar o perú de ação de graças. O negócio prosperou graças ao terroir e ao empreendedorismo estadunidense. Alguns poucos produtores, no entanto, continuaram fazendo vinhos à moda antiga. Com carinho, paciência e o mesmo cuidado com que as avós daquela região assavam tortas de maçã.



Apenas a indicação 02 CAB escrita com esferográfica azul sobre a parte visível da rolha. Ganhei as duas garrafas de meu amigo Glynn Baker, produtor, junto com sua esposa deste autêntico californiano do Napa, nascido e criado no mesmo código postal dos Opus One e dos Caymus, seus mais renomados vizinhos.


Observando a garrafa nua, tive vontade de vestí-la com uma gravura de Picasso e dar-lhe um nome qualquer como Mouton ou Rothschild. Bobagem, pensei. Como bem dizem os franceses, o bom vinho não precisa de rótulos.







quarta-feira, novembro 14, 2007

Aquela noite no Café Anglais

No dia 7 de junho de 1867, Alexandre II, tsar da Rússia, Alexandre III, seu filho e sucessor, e Guilherme I, rei da Prússia e futuro kaiser do império alemão, protagonizaram em Paris o maior espetáculo gastronômico de que se tem registro nos anais da História. O palco de tal acontecimento foi o mítico Café Anglais, em Paris.


Para o jantar, que ficaria entronizado como o Banquete do Três Imperadores, foram preparados suflês de creme de galinha à moda do Reno, filés de linguado à veneziana, ensopados de galinha à portuguesa, beringelas à espanhola, lagosta à moda de Paris e ortolans, pequenos passarinhos, à moda de Rouen. A tradução em português fica a dever à magnitude do menu cujo texto original, por si só, justificaria a Comuna de Paris e a precedente Revolução Russa. Principalmente por essa parte:


Vins


Madère retour des Indes, 1846

Xerès, 1821

Chateau Yquem, 1847

Chateau Margaux, 1847

Chambertin,1846

Chateau Latour, 1847

Chateau Lafite, 1848


O Café Anglais foi citado no cinema em Festa de Babette. Após preparar um banquete digno de reis para um pequeno grupo de habitantes de uma vila camponesa, a chef Babette, quando perguntada sobre como foi possível consumir um prêmio de loteria em uma única noite, responde: " é o preço de um jantar para dez pessoas no Café Anglais." Emblemático de seu tempo, o Café Anglais desapareceu junto com a época da qual foi protagonista. Foi demolido em 1913. Estive lá duas semanas atrás.

Não mais se localizava no Boulevard des Italiens, mas na pequena vila incrustada na Serra da Mantiqueira. Os chefs não mais eram Adolphe Dugléré e sua promissora assistente Babette, mas Maria Olimpia Fortes e Frederic Silva. De resto, tudo permanecia igual. A sopa de camarões da acima veio acompanhada de um jerez amontillado. Fazendo par com o Clos Vougeot da Borgonha ali do lado, codornas recheadas com foie gras e dispostas em pequenos sarcófagos à moda do Vale dos Reis do Egito.


Ainda seriam servidos queijos, sobremesas e um destilado de champagne, este último sob a noite estrelada. A confraternização ainda se estenderia pela abóbada celeste. Mas não fui até o momento em que os sisudos e sofridos camponeses são proclamados reis. Recolhi-me mais cedo. O sol não tardaria a raiar e alguém precisava ver como andavam as coisas no vasto Império.




quarta-feira, outubro 31, 2007

O primeiro jantar na casa da mulher amada


Vinhos lendários não são privilégio apenas dos povos europeus. Os brasileiros também ostentamos em seu breve curriculum de degustadores, nomes míticos que, ainda que tenham caído de moda, ocupam lugar de honra no inconsciente coletivo enológico nacional. Por isso, não se faz necessário recorrer a Jung ou Freud para se descobrir, por trás da máscara de bebedores da tradição da Borgonha ou da modernidade supertoscana, o arquétipo fundador do leite da mulher amada.


O Liebfraumilch representou mais do que um vinho para a cultura enológica brasileira, foi um rito de passagem. Da infância para a adolescência, com suavidade, doçura e a mesma ingenuidade. Produzido na Alemanha apenas para exportação, o doce vinho suave do Reno, considerado em seu país de origem como de baixa qualidade, conquistou o mercado brasileiro na qualidade de vinho importado e passou a se destacar na prateleira dos supermercados, não apenas pelo nome, mas também pela garrafa.


Sobre o mítico vinho da garrafa azul circulavam várias lendas. Uns diziam que era de alta qualidade pois ostentava o selo Qualittatswein, outros afirmavam que era produzido no norte da África e seria envasado em uma garrafa azul turquesa para justificar o preço que se pagava por ele. Fato é que o comerciante que teve a idéia de trazer o vinho e mudar a cor da garrafa criou fama, fortuna e a maior importadora de vinhos do país.


A primeira vez que jantei na casa da minha namorada levei um Liebfraumilch. Há pouco, dei de cara com esse garrafa azul safra 2003. Achei que não poderia haver no mundo vinho com a pior relação custo x benefício mas estava enganado. Diante do carrinho de compras, a mulher amada me perguntou o porquê daquele vinho. Expliquei. Dezoito anos depois, ela imaginava aquele primeiro como um Montrachet.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Na adega do diabo, sob as bençãos de Don Melchor


No ano de 1883, Don Melchor de Concha y Toro regressou da França com algumas mudas de parreira na bagagem. Tão logo chegou à propriedade situada a pouca distância de Santiago, tratou de plantá-las no vasto pomar. As jovens videiras cresceram, frutificaram e permitiram à Casa de Concha y Toro fabricar seu próprio vinho. Para proteger tal patrimônio, Don Melchor guardou seu vinho no porão de sua residência e, com o intuito de espantar visitantes mal intencionados, espalhou pela região que, por trás daquelas portas se encontrava o inferno e aquele que por ali se aventurasse seria recebido por el diablo em pessoa. Só que essa é a história oficial.



Sabia-se à época, que Don Melchor produzia vinhos de qualidade e que estes eram armazenados no porão da residência dos Concha y Toro. Mas também não era segredo o fato de que o nobre nutria grande simpatia por uma sobrinha, a bela e fogosa Doña Amelia. Também não haviam de passar despercebidos os estranhos ruídos - e gemidos - que vinham do porão nas noites em que, coincidentemente, Doña Amelia por ali pernoitava. Para que tal mistério não passasse sem explicação, foi criado o mito de que naquele subterrâneo não se escondia o Toro de Don Melchor nem a Concha de Doña Amelia mas os vinhos preferidos do inominável.



O tempo passou e a nobreza de Don Melchor reside hoje num dos grandes Cabernet Sauvignon do Chile, o corpo da fogosa Amelia chega até nós por meio de um dos melhores Chardonnays do continente, e o tal Casillero del Diablo hoje pode ser encontrado em qualquer supermercado. No Chile, é verdade, não dão grande coisa por ele. Ao contrário de Don Melchor e Amelia não se tem em grande conta o Casillero. Apesar de ser este o vinho servido àqueles que visitam à Casa Concha y Toro, é considerado um vinho menor. Pode ser. Para eles. Porque este Casillero Carmenere 2005 foi uma grande surpresa. E recebeu análise à altura nos blogs Vinho para Todos, Vivinhos, Le Vin au Blog e Viva o Vinho.



Carmenére é aquela uva que foi dada por extinta e, se hoje está mais viva do que nunca e fazendo bons vinhos varietais, foi graças aquele punhado de mudas que Don Melchor trouxe na bagagem. No meio delas se escondia a última Carmenére. Que vingou, cresceu e frutificou e deu vinhos como se fosse uma Cabernet Franc. Foi preciso que um enólogo francês a reconhecesse e trata-se de reabilitá-la. A singela Carmenére. A nobre uva bastarda que agora emerge, não das cinzas do inferno, mas da bem cuidada produção dos Concha y Toro.




domingo, junho 03, 2007

A incrível história do homem que transformou vinho em água

Na liturgia do vinho, Robert the wine advocate Parker opera milagres. Reza a lenda que Robert the wine apostle Parker, contra a unânime opinião de todos os críticos e especialistas franceses, qualificou como "soberba" a obscura safra de 1982 de Bordeaux. Quando estes vinhos atingiram o estágio de prontos-para- beber, o mundo calou-se de espanto diante da revelação proporcionada por aquelas garrafas. Confirmada a profecia, todas as garrafas que os dedos de Robert midas Parker passaram a tocar transformaram-se imediatamente em ouro para seus produtores.


Mas o maior das façanhas atribuídas a Robert the father, the son, and the holy ghost Parker ainda estaria por vir. A Robert the guy Parker é atribuída a responsabilidade de ter ensinado os americanos a beber vinho. O que, considerando a dimensão e a sede do mercado norte-americano, equivale à reversão do bíblico milagre da transformação da água em vinho operada por ocasião das bodas de Canaã.



O fato é que Robert Parker andou lendo este blog. Só encontro esta explicação para a recente coincidência de opiniões entre o Santo e este pobre pecador que vos escreve. Em entrevista à imprensa brasileira, Robert Parker andou declarando que o vinho bom é aquele que você gosta, que ótimos vinhos encontram-se em todas as partes do mundo e que, ora vejam vocês, a razão para que se pague mais de 100 dólares por um vinho não é outra senão a de adquirir a experiência necessária para identificar os maravilhosos vinhos que situam-se na faixa de 15 e 35 dólares. Touché.



Recém-convertido ao inconsciente coletivo enológico mundial, junto-me à legião de seguidores do maior dos profetas. Como testemunha fiel que sou, afirmo que Robert amém Parker já degustou de tudo, Robert amém Parker tudo sabe, tudo ouve, tudo vê, Robert amém Parker multiplicou os pães, Robert amém Parker andou sobre as águas, Robert amém Parker ressuscitou Lázaro, Robert amém Parker...